21 de Maio - Beatificação da Mãe Clara

21 de Maio - Beatificação da Mãe Clara

21 de Maio de 2011 foi o dia escolhido, pela Sé Apostólica, para a beatificação de Maria Clara do Menino Jesus, que acontecerá no Estádio do Restelo, em Lisboa, cidade onde morreu a nova beata.



Espera-se um significativo número de participantes, não só de Portugal, como delegações dos 14 países onde se encontra a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC), fundada pela Irmã Maria Clara do Menino Jesus (1843-1899) e pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão (1810-1878). Depois de, no passado dia 10 de Dezembro de 2010, Bento XVI ter assinado o Decreto de aprovação do milagre, operado por Deus em D. Georgina Troncoso Monteagudo, atribuído à intercessão da Irmã Maria Clara, só faltava o anúncio da data da beatificação.
De família nobre, Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque nasceu na Amadora, a 15 de Junho de 1843, filha de Nuno Tomás de Mascarenhas Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque e de D. Maria da Purificação de Sá Carneiro Duarte Ferreira. Foi baptizada na igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica. Tendo ficado órfã de mãe e pai, respectivamente, nas epidemias de 1856 e 1857, ingressou no Asilo Real da Ajuda, orientado pelas Filhas da Caridade francesas. Com a expulsão das suas educadoras, em 1862, embora tendo família, aceitou o convite dos Marqueses de Valada que a receberam e trataram como filha. Após cinco anos de vida faustosa, entrou no Pensionato de S. Patrício. Aí, sob a orientação espiritual do Padre Raimundo dos Anjos Beirão – ardente pregador apostólico português –, veio a professar particularmente nas Terceiras Seculares de S. Francisco de Assis, as Capuchinhas de Nossa Senhora da Conceição, com o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus.
Foi o grito da realidade, a pobreza e a miséria humana, que apontou o rumo a tomar! As dificuldades e carências do séc. XIX (revoluções, consequências da industrialização crescente, degradação social, pobreza, miséria, etc.), o enorme clamor de uma multidão anónima de desvalidos, entregues a si mesmos, reclamando uma resposta concreta interpelaram profundamente Raimundo e Clara. Sentem-se chamados e enviados a fazer o bem onde fosse necessário: cuidar os doentes e os sós, acolher e educar crianças pobres, iluminar caminhos, suavizar a dor, ser regaço acolhedor. Urgia, de facto, a fundação de uma Congregação portuguesa, preenchendo o vazio da expulsão das religiosas estrangeiras.
Como a legislação portuguesa de 1833/1834 decretara a extinção das ordens religiosas, a confiscação dos bens eclesiásticos e a proibição de receber noviças, a Irmã Maria Clara teve de deixar a pátria e partir para Calais - França, a 10 de Fevereiro de 1870, a fim de fazer o Noviciado e a Profissão Religiosa, na intenção de, posteriormente, fundar uma nova Congregação, em Portugal. Emitiu os votos públicos de Amor a Deus - pobreza, castidade e obediência -, no dia 14 de Abril de 1871. Regressada a Portugal, dias depois, a 3 de Maio de 1871, juntamente com o Padre Raimundo dos Anjos Beirão, deu início à Congregação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres pelo Amor de Deus, depois Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, hoje Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Cinco anos depois, a 27 de Março de 1876, a Congregação era aprovada pela Sé Apostólica. Já, em 1874, tinha sido reconhecida civilmente como associação de beneficência.
Mulher de uma sensibilidade riquíssima e de um coração repleto de bondade e de ternura pelos mais pobres e abandonados, a Irmã Maria Clara dedicou toda a sua vida a minorar sofrimentos e dores, enchendo Portugal de casas de assistência, de atendimento e de educação, onde todos pudessem encontrar carinho e amparo, fosse qual fosse a sua condição ou estado social: creches, assistência a crianças e a inválidos, domicílios, escolas e colégios, hospitais, cozinhas económicas, etc.. Os apelos chegavam dos mais diversos lugares e países. As Irmãs começaram a ser enviadas, inclusive ad gentes: Angola em 1883; Índia em 1886; Guiné em 1893 e Cabo Verde em 1893. Não obstante as contrariedades que lhe exigiram fortaleza e determinação, a Irmã Maria Clara, dotada de um invulgar dinamismo evangelizador, abriu mais de 140 obras e recebeu mais de mil Irmãs, tendo unicamente em vista a urgência da caridade.
Envolta em fama de santidade, a Irmã Maria Clara faleceu em Lisboa, a 01 de Dezembro de 1899, depois de uma vida inteiramente dedicada a fazer o Bem, onde fosse necessário. Os seus restos mortais repousam na Cripta da Casa-Mãe da Congregação, em Linda-a-Pastora, onde acorrem inúmeros devotos a implorar a sua intercessão junto de Deus. Passados 111 anos e após ter decorrido o processo de canonização, aberto oficialmente, em 1995, a Igreja, com a leitura da Carta Apostólica, proclamará beata a Irmã Maria Clara do Menino Jesus, isto é, bem-aventurada, feliz, apresentando-a, assim, como exemplo, desafio e estímulo para todos os cristãos. A sua vida transparece fidelidade e o seu carisma permanece actual e necessário. Para o seu tempo, como para o nosso, onde tudo parece contrário, a Irmã Maria Clara ergue-se, humilde, como referência credível de sentido, como sinal de esperança que reflecte para além de si mesma.
“Maria Clara, um rosto da ternura e da misericórdia de Deus”: eis o slogan que dará o tom às comemorações. De facto, nela se visibilizam os traços característicos do coração de Deus: bondade, ternura, compaixão, misericórdia, acolhimento, gratuidade, confiança, amor. Segundo D. António Couto, Bispo Auxiliar de Braga, a Irmã Maria Clara “tinha um grande coração que vê”. Vê. Deixa-se tocar profundamente pela miséria em que mergulha o povo português. Rompe barreiras e busca soluções, por todos os meios ao seu alcance. Abdica de tudo e faz dos pobres a sua família predilecta. Torna-se a Irmã dos pobres.
O lema “onde houver o bem a fazer que se faça”, que emerge da forma activa como a Irmã Maria Clara viveu o Evangelho, é, hoje, prolongado no projecto de vida dos membros da grande família Franciscana Hospitaleira, composta por Irmãs, Consagradas Seculares, Leigas Consagradas e Leigos comprometidos na Igreja e na sociedade. Inserida no mundo e situada no tempo, a missão hospitaleira continua a exercer-se, na alegria da gratuidade, no âmbito das obras de misericórdia, segundo os critérios de felicidade propostos por Jesus.

Segunda, 7 de Fevereiro de 2011